Copenhague e Noronha: a 1ª é para a 2ª existir
quarta-feira, dezembro 30, 2009 por Priscilla SantosO que a primeira imagem (Birgit, minha anfitriã em Copenhague, ao lado da bike que usa em seu transporte diário) tem a ver com a segunda (vista do Forte dos Remédios, em Fernando de Noronha)?Para começar, foram clicadas nos dois lugares em que estive nas duas últimas semanas. Desembarquei em São Paulo vinda da Cop-15, na Dinamarca, no dia 19 de dezembro e já rumei para minhas tão sonhadas férias no dia 20 cedinho. Como não deu para comentar o desfecho da conferência climática na época e agora a notícia já ficou velha, decidi colocar aqui minha impressão dessas experiências (de toda forma, veja na continuação da matéria uma recapitulação sobre o desfecho da Cop-15). Apesar de eu ter passado quase todas as horas do dia em Copenhague dentro do centro de conferências, era pela manhã na ida de ônibus-e-metrô para o Bella Center, e na volta para casa, quando, dependendo do horário, ainda restava tempo para sentar no sofá e tomar um cafezinho com meus anfitriões, um casal simpático dinamarquês, que me vinha a certeza de que numa coisa estávamos certos: independentemente do que os políticos decidam sobre o futuro global, devemos manter nossas pequenas atitudes diárias que contribuem para um mundo mais limpo – e para uma vida mais agradável.
Comentei sobre os Langvad Nilsson em meu primeiro post na Dinamarca. Se você acompanhou, já deve saber que eles já passaram dos 60 e nunca tiveram carro. Fazem tudo de bicicleta e não vêm necessidade de automóvel. Mesmo quando começou a nevar, eles continuaram indo de bike diariamente para o trabalho – ilesos ao fato de que quando saíam pela manhã a escuridão ainda era digna da noite. A Birgit e o Uff não eram os únicos. Faziam parte de um todo. Um todo que é atendido razoavelmente bem pelo poder público em suas necessidades. Em Copenhague há ciclovias, sinal de trânsito para bicicletas. Pode-se entrar com a bike a qualquer hora do dia no trem e no metrô (que, por sinal, funcionam 24 horas diariamente). Os ônibus são todos rebaixados. Assim, além de dar acesso aos cadeirantes, fica fácil empinar os carrinhos de bebê. Por isso, mesmo quando peguei um ônibus às duas da manhã para voltar para casa, havia no ponto um casal com um bebê de colo, todo empacotadinho, pronto para usar o transporte público. Bebês são fartos pelas ruas. Tá frio? Coloca roupa. Sem frescura. Outra cena que tive a alegria de ver duas vezes foi o ônibus parar em um ponto e subir uma turma inteira de crianças, umas 20, entre 6 e 7 anos de idade, com um professor na frente e outro atrás olhando por eles. Em Copenhague, na hora de fazer excursão escolar, nada de ônibus fretados, vão de transporte público mesmo.
No último dia da Cop-15, cerca de oito da noite, passei pela praça em frente ao City Hall. Me surpreendi com uma banda de instrumentistas tocando “What a Wonderful World”, imortalizada por Louis Armstrong, bem temática para o dia (veja aqui a música cantada por Louis e preste atenção na letra, uma verdadeira ode à natureza e à vida). As pessoas que estavam ao redor ganharam um pedaço de papel com a letra da canção para fazer coro. Aquele foi o momento que mais me emocionou em toda a experiência em Copenhague. Foi um momento síntese do motivo de tanto esforço, de tanta conversa e tanta dedicação de tanta gente de tantos lugares do mundo. Às vezes, em meio à grandeza das negociações políticas e econômicas que envolvem o tema, perdemos de vista a verdadeira razão de estarmos juntos nessa: preservar esse mundo maravilhoso. Uma semana depois, enquanto eu avistada as mais belas paisagens no meio do Atlântico, e me impressionava com a força e o poder da natureza em Fernando de Noronha a estrofe da canção me invadia. “And I thank to myself what a woderful world”. No fim, penso comigo, fomos à Copenhague para que Fernando de Noronha, assim como tantas outras paragens do mundo, não se tornem apenas lembranças em velhos álbuns de viagem.
Cop-15 – para recapitular: a Cop-15 fracassou no intuito de se firmar um acordo global com força de lei que impusesse a redução de emissões de gases de efeito estufa por parte de países desenvolvidos e em desenvolvimento. O documento final eliminou esse que seria o coração do acordo – mas fala em financiamento de países ricos para ajudar emergentes e pobres na mitigação de poluentes e adaptação aos efeitos do aquecimento global (serão 100 bilhões de dólares até 2020), toca no assunto Redd + (que prevê transferência de dinheiro para manutenção e conservação de florestas), o que pode ajudar muito o Brasil no esforço de combate ao desmatamento, e assume publicamente que a temperatura do planeta não pode subir mais que 2 graus celsius em relação à era pré-industrial. Fala-se em marcar uma segunda reunião para meados de 2010 na Alemanha. Há também esperanças de que o acordo (que não foi aceito por todas as nações envolvidas, portanto, não é obrigatório) venha a ganhar força de lei e incluir a obrigação da redução de poluentes na Cop-16, que acontece na Cidade do México. Bom, esse foi o resultado oficial da Cop-15.
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dezembro 30th, 2009 at 5:50 pm
Priscilla,
venho sempre ao O Guia Verde (e devoro mensalmente a Vida Simples) e senti muito que você não tenha tido mais tempo para postar de Copenhague. Mesmo assim já estou com vontade de conhecer a Dinamarca, que sempre me pareceu um país simpaticíssimo, ainda mais agora depois dos seus depoimentos. Concordo plenamente com você a respeito de “mantermos nossas pequenas atitudes diárias que contribuem para um mundo mais limpo”, e como tenho esse pensamento há tempos, acabei começando um blog pra tentar espalhar por aí essa ideia. Batizei-o de De Verde Casa, que tem uma dupla leitura simpática, e gostaria muito de receber sua visita. Na verdade, seria mesmo uma honra! O blog é recente, ainda com poucos posts, mas cheio de boas intenções. O link é http://www.de-verde-casa.blogspot.com Espero você lá! Um beijo grande e um 2010 incrível, com muita saúde e tempo suficiente pra fazer tudo que você planejar!
Juliana.