Especial Fernando de Noronha: homem também é bicho

sexta-feira, janeiro 8, 2010 por Priscilla Santos
À direita, a árvore de natal noronhense: um cactus decorado com cascas de ovos. Obra de uma das raras moradoras locais que vivem na rua principal da Vila dos Remédios. Na hora do clique, ela exclama: "tá tirando foto do meu pé de ovos!". Falta preservar histórias assim

À direita, a árvore de natal noronhense: um cactus decorado com cascas de ovos. Obra de uma das raras moradoras locais que vivem na rua principal da Vila dos Remédios. Na hora do clique, ela exclama: "tá tirando foto do meu pé de ovos!". Falta preservar histórias assim

Para finalizar o mini-especial Fernando de Noronha que rolou essa semana aqui n’ O Guia Verde, um quarto post mais reflexivo. Apesar de todos seus resultados, a concepção de preservação do meio ambiente em Fernando de Noronha tem lá seu quê de old school. Explico: preocupa-se muito com a conservação da fauna e da flora, com a alimentação e desova das tartarugas, com a paz dos golfinhos, com a limpeza da mata. Excelente. Porém, esquece-se dos homens, como se eles não fizessem parte do meio ambiente. Para ser morador em Noronha é preciso de carteirinha de registro. Para conseguí-la há três chances: nascer na ilha (o que é raríssimo há 20 anos, já que as grávidas são pressionadas a irem para Recife terem os filhos), casar-se com um nativo (o que também fica mais difícil) ou tornar-se sócio de um nativo em um empreendimento. O número de habitantes não pode passar de 3 mil e o de turistas de 500. Ao visitar a ilha, pouco se conhece sobre as raízes locais. Há informações isoladas sobre uma invasão holandesa aqui, outra inglesa acolá, a existência de uma base americana de observação de mísseis nos anos 1950, uma prisão na época do Brasil colônia e também da ditadura. Mas, afinal, quem é o noronhense? De onde ele vem, o que ele come, quais suas tradições? A auto-estima da população não parece muito boa. Os habitantes parecem estar ali para servir quem está a passeio e, assim, sobreviverem. Afinal, vivem a preço de turista. A passagem do ônibus que circula pela ilha custa R$3,10 (provavelmente, a mais cara do Brasil). O litro da gasolina, R$3,80. E por aí vai. Tanta preocupação com as aves e animais marinhos que esqueceram o bicho-homem e caiu-se numa rotina um tanto maniqueísta. A natureza é o bom selvagem. E o homem aquele que surge para devastá-la e deve se sentir culpado por isso. Prefiro acreditar que nós, seres humanos, e o restante dos outros seres vivos e não vivos nessa terra somos uma coisa só, estamos integrados e somos interdependentes. Preservar a natureza é também preservar a nós mesmos.

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Postado em Passeio | 4 Comentários »

4 Responses to “Especial Fernando de Noronha: homem também é bicho”

  1. rodrigo vieira da cunha Says:

    Priscilla, muito interessante essa visão. Não conheço Noronha, mas sempre ouço falar de histórias não muito legais de quem vive por lá. É aquela história de ser um paraíso para quem está de fora… é isso mesmo?

  2. Priscilla Santos Says:

    Pois é, acredito que as pessoas que vivem lá também vejam Noronha como um paraíso que não podem deixar para trás – do contrário, da forma como a vida ali é difícil, já teriam saído. Acredito que Noronha só tem a natureza preservada pelo rigor e preocupação ambiental, quiçá herança dos tempos em que o arquipélago era território nacional. O problema é que falta um programa que trabalhe com a população. Quem mora lá poderia, por exemplo, ter preço diferenciado nos itens do dia-a-dia (transporte, alimentação). Poderia haver um programa de turismo solidário, que valorizasse mais a cultura local, a culinária, a história pessoal de quem vive ali. Como disse um guia, “o noronhense é espécie em extinção”. Então bora preservar essa espécie também!

  3. Tanaka Says:

    Priscilla, vale também lembrar que todas as regras são passíveis de exceção e que o pior exemplo é o número de visitantes que ultrapassa a marca de 3.000 nos dias em que os cruzeiros marítimos aportam em Noronha.

  4. Priscilla Santos Says:

    Sim, quando os cruzeiros desembarcam começa a corrida pelo quem ganha-mais. A inflação da ilha vai a 1000% de um dia para o outro, pois todo mundo quer cobrar mais caro de quem está nos navios. Pelo que vi em minha estadia, 300 pessoas são autorizadas a descer do navio e passar o dia na ilha (voltando para domir no navio) por dia. Tanto que as pessoas se revezam, não dá para descer todos os tripulantes de uma vez. Mesmo assim, atrapalha. Mas o que questiono não é a facilitação da vida do bicho-homem-turista, esse tem que seguir regras super restritas sim. Porém, acho que os locais poderiam ter melhor qualidade de vida e auto-estima.

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