Conversa de ônibus

sábado, janeiro 30, 2010 por Priscilla Santos

Há cerca de um ano e meio tenho uma bicicleta dobrável. Se estou de bike e chove, pego um táxi e a coloco no porta-malas. Essa semana resolvi pela primeira vez dobrar a bike e pegar um ônibus – sempre achei que seria trabalho demais, onde colocaria a bicicleta? Como faria para sentar e segurar a bike ao mesmo tempo, sem atrapalhar a passagem? Eis que na quarta-feira resolvi fazer a primeira experiência, que foi muito bem-sucedida. Como só passo 10 minutos dentro do ônibus, é tranquilo. Tenho que entrar com a bike e ficar ali ao lado do motorista – único lugar em que cabe a magrela sem atrapalhar o fluxo – durante todo o trajeto. Entrar em um ônibus com uma bicicleta dobrável é gerador de assunto instantâneo. Logo o motorista já olha de lado, solta uma pergunta. Reproduzo abaixo o diálogo de quinta-feira – uma pequena demonstração de mais uma das habilidades da bike, a de socializar. Afinal, era uma história com bicicleta o que eu e aquele motorista (esse aí na foto) tínhamos em comum. Ah, imagine que tudo que o motorista dizia saía com sotaque baiano.

Ele -  Essa bicicleta é daquelas normais?

Eu – É sim, só a roda é menor

Ele – Eu andava muito era disso aí, nos idos, lá no interior. O caminho era assim ó: subia um pouquinho e depois descia, descia, aí subia mais um puquinho e descia. Delícia. Eu tinha um farol que os carros até saíam quando eu passava de tão potente. É um farol assim grande, muito raramente passa alguém com um assim. Eu usava um dínamo, enquanto pedalava carregava a bateria das luzinhas. Quando eu parava, as luzinhas apagavam.

Eu – Ah, é? Lá no interior da Bahia há um tempão atrás já tinha dínamo? (penso comigo: e nós achando que isso era uma revolução de agora, quem diria, pura sabedoria popular).

Ele -  Tinha sim. Já vinha na bicicleta. Agora é que virou demodé. Mas se você for numa loja dessas que têm um monte de equipamentos ainda acha.

Eu – E onde é esse interior?

Ele – É Serrinha, na Bahia. Perto de Aparecida.

Eu – E você não tem vontade de voltar para lá não?

Ele – Ah, você sabe como é. São Paulo é que nem Nova York, Paris, muita versatilidade.

Dou sinal para descer no próximo ponto.

Eu – Qual é seu nome?

Ele – Aqui na linha, me chamam de Jesus.

Eu – E qual é seu nome mesmo?

Ele – É Messias.

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Postado em Transporte | 3 Comentários »

3 Responses to “Conversa de ônibus”

  1. Rodrigo Gonçalves Says:

    Também uso uma bicicleta dobrável desde o inicio deste ano. Sempre entro com ela no ônibus e o fato de dobrá-la sempre chama atenção de quem passa. Comecei este ano a usar a bike e o ônibus para ir ao trabalho. Minha viagem de ônibus leva em torno de 30 minutos – moro em Florianópolis e de minha casa até ao centro da cidade são 30 km – e vou sentado com a bicicleta sem problema algum. Gostei de ver seu papo com o motorista… Acho que nestas “aventuras intermodais” apreendemos a cidade e os seres humanos bem melhor quando interagimos assim desta maneira. Abração!

  2. Lucas Jerzy Portela Says:

    falando em dobraveis e em Bahia: Dahon são O meio de transporte horizontal pra Salvador.

    Salvador tem o empecilho da montanha: subir dos vales pros topos (onde estao os bairros).

    mas tem belissimos elevadores urbanos no centro da cidade, com vista pro mar de Todos os Santos – e em breve um com vista pro Centro Velho, na Baixa dos Sapateiros.

    não é permitido embarcar nos elevadores de bicicletas comuns. Mas de dobraveis, sim.

    Aí voce pode estar no Pelourinho, descer pra o Comerio, passear, tomar um café, e subir mais adiante, no Carmo.

    É insuperável! Mario Leal Ferreira e Diogenes Rebouças (os pais do intervencao de recorte modernista na area barroco-neoclassica tombada da cidade) iriam adorar!

  3. Joana Ramos Says:

    Que legal! Eu queria uma tb, mas nunca vi de perto! Coloca uma foto pra gte ver?? kkk E o preço? Foi caro? Valeeeeeeu!

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